Mãe escreve-se com letra grande
Episódio 8
Ser Mãe
QUANTO TEMPO DEMORAMOS A APRENDER?
Mãe. Sempre que escrevo esta palavra, sai-me automaticamente com letra maiúscula, ou com letra grande como dizemos quando estamos a aprender a escrever.
Por volta dos 6 anos, começamos esta aprendizagem e vamos aprimorando ao longo dos anos em que estamos na escola e continuando pela vida fora. Quando iniciamos, perguntamos se é com “o” ou com “u” que se escreve a palavra abraço, se é com letra grande ou pequena o nome das estações do ano ou o nome do nosso cão. Para ser Mãe, não temos esta preparação, vamos vendo as nossas Mães, as nossas tias, as Mães dos nossos amigos, as nossas amigas tornarem-se Mães. Mas não temos esse tempo para praticar, para escrever a lápis e usar a borracha quando trocamos a cedilha por dois esses.
Nunca pensei muito sobre a maternidade e, na verdade, durante algum tempo achei que não teria o que é necessário para ser Mãe, talvez ainda me sentisse demasiado filha. Até que chegou a minha vez de ver a minha barriga crescer para ser aconchego e primeira casa da minha filha. Sempre fui ouvindo as mirabolantes histórias do meu nascimento que aconteceu no carro a caminho do hospital, depois de uns meses de repouso para que eu não nascesse antes do tempo e pequenina demais. Pois quis a ironia que também eu tivesse de ficar de repouso para a minha filha não vir ao mundo antes do previsto. Foi neste tempo de repouso forçado que o meu corpo e a minha mente treinaram o que é desacelerar e foram aprendendo o que é realmente importante e a valorizar.
A escrever temos tempo para ir aprendendo devagar, a ser Mãe não chegam os nove meses para o primeiro capítulo. Não há gramáticas que ensinem as regras e excepções, nem dicionários que expliquem o significado de cada um dos vários choros e barulhinhos com mensagens encriptadas dos primeiros dias. É uma nova e infinita aprendizagem que temos de fazer. Conjugá-la com a vida profissional e com todas as vertentes da nossa existência é muito mais difícil do que saber se o “a” leva acento grave, agudo ou se se acrescenta um “h”.
Malabarismo de papéis
Já viram aquela imagem de uma Mãe a equilibrar vários pratos em simultâneo, como se fosse um polvo de oito braços tentando não deixar cair nenhum?
Conciliar este novo papel de Mãe com os que já tínhamos a decorrer é um desporto alta competição em mil modalidades simultâneas. Em muitos dias, envolve culpa ou peso na consciência por não estarmos presentes em nenhum dos papéis que temos como queríamos, ou como nos foi incutido que deveríamos estar. E não queremos partir nenhum prato.
Também eu me senti assim. Integrada numa multinacional em profunda transformação, com uma fusão em curso, que envolveria ainda mais viagens do que as que tive de fazer durante a gravidez e com a hipótese de uma eventual mudança de país a pairar, o medo de falhar no meu novo papel de Mãe adensou-se cada vez mais.
Olhei para a minha hierarquia de prioridades e resolvi escolher a minha filha e vê-la crescer, todos os dias. Escolhi estar presente nos grandes acontecimentos e nos pequenos gigantes momentos, como os primeiros passos, a festa do dia da Mãe na creche, em que recebemos o nosso primeiro colar feito de massinhas pintadas à mão, a queda do primeiro dente ou o caminho a pé para a escola, sem pressa, apanhando folhas pelo caminho, ouvindo com o coração as suas preocupações dos primeiros dias de escola e esperando a hora da saída com tempo para brincar nos escorregas ou saltar nas poças de chuva.
Quantos capítulos tem esta história?
Com a maternidade surgiu também o interesse – e a necessidade – de saber mais sobre a amamentação. Foi nesta fase que fiz a formação de conselheira de aleitamento materno com o intuito inicial de tornar a nossa experiência de amamentação mais tranquila e também para seguir o que a minha intuição me dizia quando o mundo inteiro nos queria levar a desistir prematuramente da amamentação.
Acabou por resultar na criação da Mommy Kangaroo, um projecto para apoiar as Mães no desafio de regressar ao trabalho após a licença de maternidade, promover e apoiar a amamentação nessa fase para as famílias que assim o desejassem e fomentar nos locais de trabalho uma cultura de apoio e acolhimento às mulheres nesta fase da sua vida, com o conceito “Empresas amigas dos bebés”.
Vendo agora à distância do tempo e da emoção, gostaria de ter escrito mais umas páginas desse capítulo da minha vida profissional, que tanto prazer me deu no seu estudo e criação. Mas essa fase foi também marcada pelos bebés que moraram na minha barriga apenas por uns meses, nascimentos que acabaram por não ser celebrados, irmãos que não chegaram a crescer e a brincar. Este universo tornou-se demasiado penoso para ser vivido a fundo todos os dias, pelo que a Mommy Kangaroo terminou.
Esta foi uma grande aprendizagem, que me trouxe muito e que me mostrou também que desenvolver um projecto sozinha pode ser muito desafiante. Foi também a maternidade, desta vez a dos nascimentos que ficaram pelo caminho e não chegaram a ser festejados, que me levou novamente a reescrever pelo meu punho mais um capítulo da minha história profissional.
Depois desta experiência, têm sido escritas outras linhas profissionais, preenchidas com formação, comunicação interna e tradução de temas associados à gestão de recursos humanos e hotelaria & turismo, numa modalidade freelancer. Projectos muito diversos, vindos de várias partes do mundo, alguns muito interessantes e cativantes, outros nem tanto. O sentimento de que a realização profissional não chegaria apenas por esta via, aliado ao advento da IA que tem vindo a transformar sobremaneira o espírito destes projectos, fez crescer a vontade de sonhar e criar a Escrivaninha – a Companhia da Escrita.
Um novo capítulo que se abre.
O que escrever nos quadradinhos?
Está agora por esta altura a fazer 10 anos que deixei de ser colaboradora por conta de outrem, com todas as vantagens e desvantagens que essa escolha envolveu. Deixei de ter a segurança financeira que batia à porta nos últimos dias de cada mês, os subsídios de férias e Natal, o seguro de saúde ou outros benefícios que daí advinham.
Deixei também a segurança de saber o que preencher nos quadradinhos dos impressos à frente da palavra “profissão”. Esta parte confesso que ainda me faz encolher. Lembro-me da primeira vez que a minha filha disse que a educadora tinha pedido para perguntarem aos pais qual era a sua profissão para explicarem aos colegas da sala. Gelei.
Acho que compliquei mais do que a minha filha. Com as suas palavras, disse: “Não sei qual é o nome da profissão, mas o que a minha Mãe faz é ajudar as pessoas a sentirem-se bem nos seus trabalhos”. Para mim é a definição mais bonita que já ouvi e revisito-a muitas vezes, sempre que me sinto insegura.
As palavras da minha Madalena ecoaram em mim e ficaram gravadas no meu coração, dando -me, uma e outra vez, coragem para continuar neste percurso de descoberta para perceber que, respeitando as minhas características, os meus valores e os meus gostos poderia chegar mais perto do que me traz equilíbrio e felicidade.
Por mares nunca dantes navegados
Naveguei por ondas incertas de mares nunca dantes navegados, sem saber se naufragava ou se chegava a bom porto. Houve de tudo neste caminho marítimo, muitos dias em que me questionei se teria feito uma boa escolha, dias de incerteza a apertar e de confiança a tremer, dias em que me perguntei se me devia ter lançado ao mar numa Odisseia rumo ao desconhecido.
No entanto, se olhar para trás, vejo o percurso que fui percorrendo, com mais ou menos peripécias, às vezes a bolinar com maior dificuldade, noutras de vento em popa e fico feliz por ter escolhido embarcar numa viagem profissional que me permitiu viver uma maternidade com presença.
Depois de revisitar estes capítulos da minha história, reparo o papel importante que a maternidade representou em cada uma das fases minha vida profissional, como me motivou a ter coragem para ousar, para arriscar, para tentar, para encerrar etapas e abrir outras.
Assim como na escrita, também na vida profissional podemos encerrar capítulos e iniciar novas narrativas, aprimorando a nossa forma de nos expressarmos e de sermos fiéis ao que nos motiva e nos faz feliz.
A maternidade ajudou-me a escrever histórias com lápis e borracha. E como se cruza a tua vida profissional com a maternidade?