O Digital matou o Manuscrito?
Episódio 6
Escrever à mão
O FIM DE UMA ERA? OU UMA REINVENÇÃO?
Um destes dias tocou no meu pensamento uma música que já não ouvia há muito tempo: video killed the radio star, video killed the radio star, video killed the radio staaaar!
Fez-me pensar numa lógica similar: será que o digital matou o manuscrito?
Devem ter-se perdido por entre arrumações e mudanças, que pena! Iria adorar saber o que escrevia a pequena Filipa na sua escrivaninha. Sim, nesta altura eu tinha mesmo uma escrivaninha, com um tampo que abria e pequeninas gavetas onde guardava as recargas coloridas para as canetas de tinta permanente e os blocos de folhinhas que trocávamos entre amigas como tesouros raros.
Onde ficou o analógico?
Escrevemos documentos de trabalho digitando no computador, enviamos cartas sem envelope para caixas de correio virtuais com arrobas, trocamos bilhetes sob a forma de mensagens de whattsapp, escrevemos notas no telefone para não nos esquecermos de uma ideia importante, apontamos aniversários na agenda do mesmo equipamento ou confiamos no aviso que nos dão as redes sociais.
Trocámos também os votos de feliz aniversário ou de boas festas por alguma versão digital. Deixámos de esperar o postal a ilustrar e a contar breves palavras sobre como estão a correr as férias de alguém querido. E as cartas de amor? Essas preciosas ridículas deixaram também de se esconder nos recantos de uma gaveta, para serem lidas e relidas vezes sem fim.
Até a lista das compras do supermercado é feita numa app que dá para ir assinalando o que já colocámos no carrinho e para partilhar entre membros da família, avisando o que está em falta no frigorífico ou na despensa.
É muito prático, muito rápido, muito útil termos tudo no mesmo suporte, no mesmo dispositivo. É.
Faz lembrar aquele anúncio “eu ainda sou do tempo”, não é? Efectivamente, e sem moralizar, o manuscrito quase desapareceu da nossa vida profissional e pessoal.
Também recorro ao digital para muitos destes aspectos da vida quotidiana e a verdade é que dou por mim a ficar com dores na mão quando resolvo escrever à mão se redigir algo que ultrapassa uma página.
Parece que está destreinada, que os dedos já não sabem bem fazer a pressão certa, o pulso queixa-se e pede para encurtar o número de palavras a escrever. A caligrafia começa direitinha, mas cedo vai desleixando o seu traço, a mão tem vontade de parar.
Sentem o mesmo? Ou já não escrevem à mão?
Escrever à mão vale a pena?
Na verdade, são inúmeros os benefícios da escrita à mão, como o desenvolvimento e manutenção da motricidade fina, o estímulo de faculdades cognitivas, o aumento do foco e concentração, ou o incremento da criatividade. É igualmente relevante na capacidade de interpretação, compreensão, aprendizagem e memorização, pelo facto de activar diversos sentidos em simultâneo.
Quem estudava fazendo resumos à mão? Aqui levanto a mão. Até as cábulas nos ajudavam a memorizar e acabávamos por nem precisar delas. Eu disse cábulas? Não, eu nuuuunca fiz cábulas.
Ler mais sobre benefícios de escrever à mão:
Uma mão cheia de razões para celebrar
Parece que o dia 23 de Janeiro foi o dia de celebrar a escrita à mão. Haja quem a aprecie e a queira festejar, recordando-a a dando-lhe vida. Eu escolho celebrá-la todos os dias.
Manuscrito, esta dança desenhada onde a mão desliza no papel e vai fazendo as curvas e contracurvas de cada letra, permitindo que as ideias fluam directamente da mente para a folha vazia que se vai pontilhando de tinta. Não encontra as distrações que tem um ecrã, com o seu cursor ansioso, essa barra que pisca intermitentemente a pedir com urgência a próxima letra.
Assim, à mão, sinto que as ideias têm tempo de se formar, não se dispersam tanto e noto que consigo concentrar-me melhor, como se a caneta que percorre o papel fosse sussurrando ao meu ouvido o que trago dentro de mim.
Quando começo a escrever, nem sempre tenho ideia do caminho a seguir ou do destino final; as palavras encadeiam-se umas nas outras, como se se fossem contaminando e fazendo surgir outras e mais outras. Uma ponta de novelo que começamos a desembaraçar, desatando nós e transformando em linhas o que nos vai no peito.
Fim de uma Era? Ou tempo de reinvenção?
Voltando à música do início: “vídeo killed the radio star”.
Curioso, quando comecei a escrever (à mão) este texto nem fazia ideia de que esta tinha sido a primeira música com videoclip a passar na MTV, numa altura em que os media visuais e a tecnologia ganhavam um lugar de destaque em relação ao áudio. Muito menos fazia ideia de que, no final de 2025, 44 anos depois deste vaticínio de assassinato, a MTV faria a sua última emissão nos moldes em que a conhecíamos, com esta mesma música do duo The Buggles.
Imagino que irá agora procurar adaptar-se, reinventar-se e aproveitar para criar sinergias com as novas formas de comunicar.
E a escrita manuscrita? Talvez não tenha um futuro totalmente reinventado, mas num mundo que começa já a sentir os efeitos da hiperestimulação provocada pelo digital e a recordar os benefícios positivos de formas mais analógicas, quero acreditar que, envolta nalguma nostalgia, a escrita feita à mão volte a ter o seu papel.