Journaling: Palavras para quê?
Episódio 5
Querido Diário
UMA OBRIGAÇÃO OU UMA LIBERTAÇÃO ?
Algures entre o final dos anos 80 e o início dos anos 90 estavam na moda os diários com uma fechadura de segurança duvidosa, que abríamos e fechávamos com uma chavinha. Tenho para mim que essas chaves eram todas iguais e podiam abrir qualquer diário. Aliás, costumávamos guardá-las junto ao diário, que é o equivalente a ter a password do computador escrita num post-it colado na sua beirinha.
Assim como muitas crianças, que o foram nesta época, eu também tive vários destes e ia escrevendo sobre os acontecimentos mais importantes, ou mais banais, começando sempre por “Querido Diário”.
Devem ter-se perdido por entre arrumações e mudanças, que pena! Iria adorar saber o que escrevia a pequena Filipa na sua escrivaninha. Sim, nesta altura eu tinha mesmo uma escrivaninha, com um tampo que abria e pequeninas gavetas onde guardava as recargas coloridas para as canetas de tinta permanente e os blocos de folhinhas que trocávamos entre amigas como tesouros raros.
Escrever o que vai na alma
O hábito e o gosto de escrever num caderno o que vai na alma vem já desse tempo, ainda que fosse de quando em vez e com a profundidade e consistência próprias da idade. Passada esta fase e já na vida adulta, fui escrevendo apenas em folhas avulsas, em cadernos de miscelâneas, quando as ideias e os pensamentos precisavam de se tornar claros no papel.
Noto agora também que, para mim, a escrita sempre teve o importante papel de me ajudar a organizar ideias, de as sistematizar, de as tornar parte integrante do meu conhecimento. Sempre fui das que precisavam de escrever escrever escrever para estudar e me preparar para testes, para exames e para momentos importantes da vida profissional.
Voltando ao hábito de escrever. Nunca mais tinha tido um caderno ou um diário destinado unicamente a esse fim e nunca mais me tinha proposto a fazê-lo de forma consistente. Escrevia apenas nas ditas folhas perdidas e desordenadas.
A vontade de escrever continuou sempre a acompanhar-me e neste meu percurso mais recente de redescoberta da escrita, houve um curso que frequentei que se tornou muito importante, tendo constituído um marco para mim.
Foi nesse curso que nos lançaram o desafio de começar a fazer Journaling. Aceitei e cumpri os 21 dias do desafio que nos propuseram. Escrever pelo menos uma página por dia, durante este período, sem voltar atrás para reler as palavras dos dias anteriores, nem voltar a editar ou a alterar o que havia sido escrito.
A princípio, parecia mera observação do que estava à volta do meu dia, mas aos pouco foi-se tornando mais profundo, quando assim tinha de ser, transformando-se num hábito que hoje é tão vital como beber água.
E magia: abriu-se a cortina para um novo projecto a abraçar. A Escrivaninha – Companhia da Escrita.
Benefícios do Journaling - Uma folha por dia, nem sabe o bem que lhe fazia
Não estamos a falar de nenhum tónico ou elixir que se recomenda dizendo: “Toma, faz bem à saúde!”. São inúmeros e documentados os benefícios do journaling para a saúde e bem-estar mental, emocional e até físico. Esta prática de registar por escrito observações, acontecimentos, percepções e sensações pode contribuir para diminuir a ansiedade, aliviar o stress, clarificar pensamentos, identificar e compreender emoções, trazendo-as para o consciente, tendo muitas vezes um efeito catártico.
Representa também uma forma de ajudar na adaptação em períodos de mudança ou situações desafiantes. Pode ser também um meio para trabalhar a memória e desenvolver competências cognitivas, melhorar o foco ou promover a criatividade.
Saber mais sobre benefícios do Journaling:
Emotional and physical health benefits of expressive writing
Journaling for Emotional Wellness
Positive Affect Journaling in the Improvement of Mental Distress and Well-Being
Reconheço estas vantagens e benefícios, mas, para mim, a escrita e o Journaling representam também uma forma de liberdade. Sou livre quando escrevo. Aí é onde sou mais livre, onde me mostro, onde retiro capas, onde escolho as palavras e as meço, não para ocultar, ou refrear mas para que revelem a verdadeira essência do que estou a viver e a sentir.
Diário, Journal, de onde vêm estas palavras?
Ao olhar para uma palavra, gosto de me questionar e de procurar descobrir a sua origem, de onde veio e como se transformou na palavra que hoje usamos.
Journaling, como a prática de escrever diariamente, estará associada à palavra latina diurnalis - de cada dia, que, por sua vez, tem como raiz a palavra dies, diei - dia. Destas terão resultado as palavras journal e jour, em francês, entrando depois no vocabulário em inglês por esta via. Curioso como diário e journal cruzam as suas origens etimológicas e os seus significados.
Para quem ainda não adormeceu, fiz esta viagem no tempo apenas porque me encantam estas origens. A palavra Journaling está associada a uma ação feita diariamente, mas confesso que há semanas em que escrevo todos os dias, outras em que escrevo apenas num dos dias e outras em que não chego a escrever nem uma linha. Não fico presa a essa obrigação de o fazer em cada um dos 365 (ou 366) que compõem o ano, é realmente uma prática de liberdade, que experiencio sem pressão e sem obrigação. Mas não tenho dúvidas que, para mim, representa uma forma de organização de pensamentos, clareza mental e libertação.
Quem já experimentou? Uma folha por dia, nem sabe o bem que lhe fazia!